O Massacre de São Bartolomeu 🖤

Bonjour mês amis, cá va bien?

Hoje vou levar vocês para um momento histórico francês, foram dias terríveis que tomaram conta de Paris e também de várias cidades pela França, vamos falar do Massacre de Saint Bartolomeu, vem comigo! Em um momento tenso, aonde a França era dividida entre católicos e huguenotes (protestantes), um casamento entre o Rei e a futura Rainha Margot, foi a solução encontrada pela mãe noiva, a temida Catarina de Médici. Sim, um casamento político foi a forma encontrada para acabar com uma guerra civil, que dividia a França, há de mais 10 anos, entre os católicos e huguenotes.

A festa que deveria ser uma grande conciliação entre as duas religiões, se tornou uns dos maiores banhos de sangue da história francesa.

O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu, foi um episódio, da história da França, na repressão ao protestantismo, engendrado pelos reis franceses, que eram católicos.

Esses assassinatos aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. Estima-se que entre 5 mil e 30 mil pessoas tenham sido mortas, dependendo da fonte atribuída.

⚫️CAUSAS

Poucos dias antes, era calmo o ambiente na capital. Celebrara-se um matrimônio real, que deveria encerrar um terrível decênio de lutas religiosas entre católicos e huguenotes. Os noivos eram Henrique, Rei de Navarra e chefe da dinastia dos huguenotes, e Margarida Valois, princesa da França, filha do falecido Henrique 2º e de Catarina de Médici, mais conhecida como Margot. Margarida era irmã do rei Carlos 9º. Alguns milhares de huguenotes de todo o país – a nata da nobreza francesa – foram convidados a participar das festas de casamento em Paris. A guerra entre católicos e protestantes predominou na França durante anos, com assassinatos, depredações e estupros. E agora, um casamento deveria fazer com que tudo fosse esquecido, seria possível esquecer esse passado tenebroso apenas com um casamento? 🙄

⚫️DETALHES DO CASAMENTO

O Papa Gregório XIII, que só aceitaria casá-los caso Henrique de Navarra (protestante) se convertesse, e diante da recusa, nem apareceu na igreja, e ainda condenou o casamento como sendo um sacrilégio perante Deus.

Catarina de Médici teve que se desdobrar e usar toda sua influencia para convencer o arcebispo de Rouen, Carlos 1° de Bourbon para celebrar a união.

Um bispo que também era pretendente ao trono da França, pois era irmão do falecido ex-rei da Navarra, o católico Antonio de Bourbon, (da dinastia Capeciano-Bourbon), justamente o pai do noivo, Henrique de Navarra, o protestante (portanto o Bispo é Tio do Noivo) .Ele aceitou, mas a maioria dos protestantes, inclusive Henrique, foram impedidos pelo arcebispo de entrarem na Catedral de Notre-Dame de Paris para participarem da cerimônia e tudo se passou por procuração.

Margot entrou sozinha, e aceitou Henrique de Navarra como seu legítimo marido, enquanto isso, o noivo ficou aguardando na porta da Catedral o final da missa para e assinar o contrato matrimonial. DETALHE: Margarida não respondeu com um “sim” à pergunta, se desejava desposar Henrique, mas fez simplesmente um aceno positivo com a cabeça, pois como sabemos, era comum na época o casamento por motivações exclusivamente políticas.

⚫️ATENTADO AO ALMIRANTE COLIGNY

Poucos dias depois da cerimônia, Almirante Coligny sofreu um atentado em rua aberta. Colligny ferido por uma da arquebuz (espécie de espingarda) foi acompanhado por amigos protestantes para sua residencia, na rua Béthizy (atual Rue de Rivoli) para aguardar a chegado do médico.

Para surpresa geral, quem apareceu foi Ambroise Paré, (considerado hoje como o pai da medicina moderna), que conseguiu tratar os ferimentos no braço e na mão, e o rei Carlos IX que tinha uma estima muito grande por Coliigny, que era seu confidente e conselheiro, prometeu então prender e julgar o culpado. Apesar das recomendações de Colligny, os protestantes se reuniram e decidiram por vingança e justiça contra o autor (ou autores) do atentado.

Estava em perigo a trégua frágil, lograda através do casamento. Por trás do atentado, estavam os Guise e Catarina de Médici.

Então, com a situação já tensa, os católicos espalharam o boato de que os huguenotes estavam planejando uma rebelião para vingar-se do atentados.

⚫️O PLANO

Em 23 de agosto de 1572, numa reunião em fim de tarde no palácio do Louvre, Catarina de Médici juntamente com seu filho Carlos IX, os Guise, e os principais membros do conselho decidiram reagir rapidamente, antes que houvesse uma insurreição por parte dos protestantes. O Rei Carlos, pressionado por sua mãe Catarina, ficou inseguro, mas cedeu e ordenou a execução de Coligny, e exigiu um trabalho completo: não deveria sobrar nenhum huguenote que pudesse acusá-lo posteriormente do crime.

Carlos IX assumiu a responsabilidade do massacre, que ele resumiu numa só frase:

”Eh bien soit! Qu’on les tue ! Mais qu’on les tue tous ! Qu’il n’en reste plus un pour me le reprocher”

”Que assim seja! Que nós os matemos, mas matemo-os todos! Que não reste um único, para me culpar”

Ficou decidido que os Guise comandariam o ataque, e que todos os guardas, soldados e milicianos católicos usariam uma sobrecapa com uma cruz e um lenço (écharpe) branco no pescoço para se distinguirem dos protestantes, que vestiam geralmente um sobretudo em preto (ou todo branco), camisa branca, e alguns com uma grande gola sanfonada branca.

⚫️O MASSACRE

Em 24 de agosto de 1572, o sinal para começar a matança de todos os protestantes, inclusive os convidados de Henrique de Navarra e outros que estavam em Paris, foi quando as badaladas dos sinos da Igreja de São Germano de Auxerre ( ou “Église Saint-Germain-l’Auxerrois”) anunciou às 4h da manhã, o dia do Santo Bartolomeu, (“Saint Barthélémy”). Paris na época era cercada por uma grande muralha, e um pouco antes que os sinos dessem suas badaladas, todas as portas de entradas e saídas, da cidade foram fechadas, posicionados guardas armados nas torres de vigilância do rio Sena, e em pontos estratégicos de Paris, parte da armadilha preparada. Sendo assim, os protestantes logo se encontraram presos na cidade, sem possibilidade de fuga, somente com a esperança de Deus para salvá-los ou algum cristão piedoso.

Primeiramente foram à casa de Gaspard de Colligny, na rua Béthizy, acabar de uma vez por todas, com a vida do chefe e comandante da liga dos protestantes, que se encontrava na cama, ferido.

Depois de levar várias espadadas, foi jogado pela janela. Seu corpo foi desmembrado, a cabeça levada para Catarina de Médici, alguns membros jogado no rio Sena, e outras partes levadas para serem expostas no “Gibet de Montfaucon”, espécie de calvário público, para condenados a morte. Demolido em 1760.

Almirante Coligny sendo arremessado pela janela

O comandante da ação de extermínio nos corredores do Louvre, e pelas ruas de Paris ficou a cargo de Henrique I° de Guise, talvez o maior responsável pelas mortes atrozes e violentas durante o massacre.

Todos os principais chefes protestantes convidados especiais (os VIPS) de Henrique de Navarra que estavam alojados no Louvre, foram facilmente perseguidos e mortos pelos guardas do castelo. E os corpos jogados no rio Sena. Foram somente poupados e aprisionados, o recém-casado Henrique de Navarra, e seu primo Henrique I° Bourbon-Condé, por serem príncipes de sangue real.

Os parisienses católicos que acordaram no meio da noite com a gritaria e o barulho pelas ruas, pensando em se tratar de uma revolta protestante, entraram na briga para defender a cidade perseguindo e matando também todos aqueles que procuravam um esconderijo ou uma saída. Nem mulheres, idosos, jovens e crianças escaparam da fúria da população, e dos soldados católicos do rei que entravam de casa em casa, bairro a bairro, em busca de protestantes. A matança continuou por vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas. Números precisos para as vítimas nunca foram compilados, e até mesmo nos escritos de historiadores modernos há uma escala considerável de diferença, que têm variado de 2.000 vítimas por um apologista católico, até a afirmação de 70.000, pelo contemporâneo apologista huguenote Duque de Sully, que escapou por pouco da morte. Relatos da quantidade de cadáveres arremessados nos rios afirmam uma visível contaminação, de modo que ninguém comia peixe, pelas condições insalubres do local.

O Sena ficou tão vermelho de sangue, pelos cadáveres boiando que era possível travessar o rio a pé (dizem os historiadores mais exaltados).

Não foi o primeiro nem o último ataque massivo aos protestantes franceses, outros ataques ocorreriam. Embora não o único, “foi o pior dos massacres religiosos do século”. Por toda a Europa, “imprimiu nas mentes protestantes a indelével convicção que o catolicismo era uma religiao sanguinária e traiçoeira.” Os Políticos ficaram horrorizados, mas diversos católicos dentro e fora da França consideraram os massacres, ao menos inicialmente, o lavamento de um iminente golpe de estado huguenote.

A cabeça cortada de Coligny foi aparentemente enviada ao Papa Gregório XIII, apesar de não ter ido mais longe do que Lyon, e o Papa Gregório XIII enviou ao rei a condecoração da Rosa de Ouro.

No dia seguinte ao massacre, o Papa Gregório XIII, feliz com a derrota dos protestantes ordenou que fosse cantado em todas as igrejas da Europa, o “Te Deum”, hino de Louvor a Deus, por ter ajudado aos valentes e valiosos católicos, na vitória contra esses heréticos inimigos da igreja, e que graças a Deus, a humanidade estava sã e salva.

O Papa Gregório Ordenou a cunhagem de uma medalha comemorativa com a inscrição Hugonottorum strages representando um anjo exterminando os huguenotes com uma espada

⚫️O FIM DE CARLOS IX E O FUTURO DA DINASTIA CAPETIANA-VALOIS Em 30 de maio 1574, o rei Carlos IX morreu de forma estranha. Alguns autores dizem que foi de tuberculose, com uma febre tão alta, que suava sangue. Outros, dizem que foi envenenado pela própria mãe, Catarina de Médici, que espalhou a droga num livro, para ser dado ao preso e também genro, Henrique de Navarra, mas por azar dela, esse livro foi parar nas mãos do seu filho Carlos IX, que assim que folheou as páginas do livro, molhando com as pontas dos dedos, morreu sangrando veneno pelos olhos, trágico, não?

O 3° filho de Catarina de Médici, Henrique de Valois, que naquele momento era rei da Polônia, ao saber da morte do seu irmão, fugiu secretamente para Áustria, Itália e finalmente a França. Em 13 de fevereiro de 1575 foi coroado rei da França como Henrique III e casou dois dias depois com Luísa de Lorena.

O 4° filho homem de Catarina de Médici, duque de Alençon e de Anjou, Hércules Francisco de Valois, morreu de tuberculose, em 1584, (29 anos), sem descentes, o que deixou sua mãe muito preocupada, pois Henrique III, apesar de gostar de homens, tentou por vários anos ter um filho com Luísa, mas que não aconteceu. Mais tarde, descobriram que a rainha era estérea.

E em 02 de agosto de 1589, quase 8 meses depois da morte de Catarina de Médici, (ao 69 anos, de derrame pulmonar), Henrique III acabou sendo assassinado pelo monge beneditino, Jacques Clement, sobre ordens dos chefes da liga dos católicos ultrarradicais liderado por Carlos de Guise, irmão de Henrique I° de Guise (lembra? Aquele que liderou o massacre), então ele morreu sem deixar um sucessor.

No seu leito de morte, Henrique III, ainda teve tempo de nomear seu primo Henrique de Navarra com seu legítimo sucessor, contrariando a vontade da igreja católica que pretendia colocar no trono seu velho tio, o bispo Carlos 1° de Bourbon (aquele que celebrou o casamento de Henrique e Margot por procuração, já que não autorizou ele se casar na Igreja). E foi assim que Henrique de Navarra se tornou o rei Henrique IV da França.

⚫️IRONIA DO DESTINO

Então Henrique de Navarra, aquele que sobreviveu à noite de São Bartolomeu, teve que renegar a sua fé e foi encarcerado no Louvre, incrivelmente, quatro anos mais tarde conseguiu fugir, retornou ao seu reino na Espanha e, anos depois, subiu ao trono francês. Mesmo renegando sua fé, porém irmão espiritual dos huguenotes, concedeu-lhes finalmente a igualdade de direitos políticos através do Édito da Tolerância de Nantes, uma compensação tardia para os huguenotes.

Henrique defendia a coesão do país:

“A França não se dividirá em dois países, um huguenote e outro católico. Se não forem suficientes a razão e a Justiça, o rei jogará na balança o peso da sua autoridade.”

Desde o inicio do massacre, se houve um plano de Catarina de Médici em acabar com a vida do seu genro, Henrique de Navarra, caiu por terra, ou melhor, fracassou totalmente, pois nessa reviravolta de assassinatos, e de reis sem filho sucessores, o trono caiu nas mãos, no personagem protestante mais conhecido, odiado e amado e da historia da França, Henrique de Navarra ou simplesmente, Henrique IV, rei da França, incrível ascensão !

Um rei protestante, odiado por uma grande parte da população da França, abandonado pela igreja, pelos soldados católicos, precisou se converter ao catolicismo para poder reinar em paz e conquistar o coração dos parisienses, e mais tarde, toda de toda a França.

⚫️INÍCIO DA DINASTIA CAPETIANA-BOURBON

Henrique IV, rei desde 1589, somente foi coroado em 7 de fevereiro de 1594 na Catedral de Chartres, e não na Catedral de Reims, como era o costume, porque a cidade ainda estava nas mãos dos católicos ultrarradicais. Após o coroação, nenhum historiador comprovou até hoje, quem realmente disse a famosa frase:

“Paris, vale bem uma missa”

Mas com certeza a partir do momento que se espalhou por todas as cortes da Europa, essa frase de puro marketing politico-comercial ajudou-o a ganhar a confiança dos católicos céticos sobre sua conversão, a confiança do povo, e principalmente a estima do novo papa, Clemente VIII, que o apoiou-o pelo fim das guerras religiosas, e o fim da guerra entra a França e Espanha.

Um reinado muito bem auxiliado pelo ministro das finanças, protestante, duque de Sully, (Maximilien de Béthune) que conseguiu tirar o pais do caos, e da falência econômica por causa das guerras religiosas, equilibrando as contas do estado, as exportações, e a livre circulação de mercadorias pelo país. Em sua homenagem, de tão importante que foi, uma das três alas do museu do Louvre, leva o seu nome, ala Sully.

⚫️UM TRISTE FIM

Henrique IV conseguiu com o papa, Clemente VIII a anulação do seu fracassado casamento com a rainha Margot, e por ironia do destino n°1: Casou-se com uma prima distante da ex-sogra, Catarina de Médici, por interesses financeiros, chamada Maria de Médici. Assim mesmo depois de escapar a várias tentativas de assassinato, acabou sendo morto esfaqueado, em 14 de maio 1610, aos 56 anos, na atual rua “de la Ferronnerie”, em Paris, por François Ravaillac, fanático católico, psicologicamente perturbado da cabeça, que ao assumir o crime declarou ter obedecido uma voz, para a salvação do mundo cristão. Ironia do destino n°2: Os católicos que o odiavam, após sua morte choraram por vários dias.

⚫️REIS DESCENDENTES DE HENRIQUE IV E MARIA DE MÉDICI

👑Luís XIII (1610-1642).

👑Luís XIV (1642-1715).

👑Luís XV (1715-1774).

👑Luís XVI (1674-1792, guilhotina em 1793).

👑Luís XVII (1793-1795, rei por direito, mas não aceito).

👑Luís XVIII (1814/1815-1824)

👑Carlos X (1824-1830)

👑Luís Filipe I° (1830-1848)

⚫️ALGUNS PERSONAGENS DESSA HISTÓRIA

⚫️LIVROS E CINEMA

📚 A história foi relatada por Alexandre Dumas em sua obra A Rainha Margot, um romance de 1845, historicamente acurado, apesar de Dumas ter inserido tons de romantismo e aventuras em seu texto. O romance de Dumas foi adaptado ao cinema em 1994, em A Rainha Margot (“A Rainha Margot”), de Patrice Chéreau.

🎞 O massacre já tinha sido representado no cinema por D. W. Griffith no filme mudo Intolerance(“Intolerância”), de 1916.

📚 Para os espíritas o massacre é relatado com destaque em duas obras: A Noite de São Bartolomeu e Ecos de São Bartolomeu.

Allan Kardec traz o artigo Os Gritos da Noite de São Bartolomeu na Revista Espírita de setembro de 1858 sobre o tema.

Recentemente, este massacre e outros episódios sobre as guerras entre católicos e protestantes, está ricamente narrada no romance do autor inglês Ken Follet – A Column of Fire (Coluna de Fogo) (2017). 🎞Muitos outros filmes também falam dos personagens dessa trágica história, claro que nem sempre fiéis a história, mas sempre é bom assistir.

Pois bem, uma história cheia de tragédias e reviravoltas, mas que merecia ser contada, cada vez mais fico fascinada pelo que aconteceu nessa cidade e nesse país, espero que esse fascínio seja transmitido para vocês também!

Bisous et à bientôt 😘

Vanessa🌻

Fontes Utilizadas:

➡️Wikipedia

➡️https://segredosdeparis.com

4 comentários sobre “O Massacre de São Bartolomeu 🖤

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